Após algumas semanas sem escrever sobre treinos,
provas ou desabafos, retomo as lides da blogosfera para um breve artigo sobre
os meus treinos na recente viagem que fiz pelo Sul de França, Alpes Suíços e
norte de Itália.
Mas, antes, não podia deixar de mandar o meu
bitaite acerca da febre dos Pokémon, que também me tem vindo a afetar.
Confesso que também eu, quando o jogo chegou a
Portugal, descarreguei a app, e fiz questão de experimentar a
caça ao monstro de bolso. Não me cativou, mas vi no jogo um bom meio de
entretenimento, com potencial para fazer os mais sedentários saírem do sofá.
Até que me apercebi que não. Afinal, há peças do jogo que permitem que os
monstros vão ter com os jogadores a locais que rapidamente foram tacitamente
assinalados. Nada contra, ainda assim, apesar de não deixar de estranhar a
visão de dezenas - centenas? - De pessoas sentadas, juntas, num mesmo espaço,
cada uma encafuada no seu telemóvel, desperdiçando uma boa oportunidade de
convívio e socialização.
Mas adiante, que este blogue não é sobre isto. O
que me transtorna, sobretudo nos treinos de recuperação, nos quais privilegio
rotas tradicionalmente mais movimentadas, é ver que, ao invés de pontualmente
me cruzar com alguém que, distraído pelo telefone, vem na minha direção,
ocupando toda a via, esse acontecimento é, agora, constante, tal a quantidade
de pessoas que deambulam encafuadas no Pokémon. E se não têm cuidado com outros
peões, terão cuidado com automóveis?
Bem, adiante. Vamos até França, que se faz tarde.
No passado agosto viajei para Nice. Sabia de
antemão que a Promenade des Anglais, junto à Baía dos Anjos, seria um potencial
local para um treino longo. Mas teria tempo, entre tantos compromissos que os circuitos
organizados habitualmente comportam?
Consegui ir treinar no domingo, depois de
jantar.
O percurso é altamente recomendável. A Promenade,
larga, tem cerca de sete quilómetros de extensão. Percorri-os a todos, até à
ponta, onde encontramos o aeroporto, pequeno, onde vemos estacionados jatos
privados dos milionários que por aquela zona costumam passear.
Regressei. Dali, da ponta, a visão daquela fila
interminável de grandes lampiões, iluminando a baía com uma luz branca,
intensa, a descrever uma curva suave, dá vontade de correr sem fim.
O caminho parece dividido por culturas distintas.
Junto ao aeroporto predominam os árabes, com as suas vestes tradicionais, a
passear, em família, afastados da confusão do turismo. Na zona central
encontramos os africanos, em menor quantidade.
E foi então, após passar a área onde passeavam os
africanos, que me deparei com aquela visão. Não era a primeira vez que a via.
Já a tinha visto de tarde, e à ida para o aeroporto, durante este mesmo treino.
Mas não lhe consegui ficar indiferente. De ambos os lados da Promenade,
milhares de velas, fitas brancas, bandeiras de todas as nacionalidades, muitas
delas árabes, ursos de peluche, flores, ofertas. Ofertas sem fim às vítimas de
um atentado - mais um - inexplicável e escabroso. É bom que a memória se
mantenha viva, mas é melhor ainda ver como uma cidade que, há exatamente um mês,
vivera um dia sangrento e de profundo luto, se reerguera. A Promenade, aqui,
entra na sua zona mais turística e movimentada. E continua. Gente, gente,
gente, como que a provar aos terroristas que perderam mais essa batalha. A
cidade, além do memorial, prosseguiu com uma naturalidade esmagadora. Também eu
me senti parte desta manifestação, ao percorrer este trajeto no meu treino.
Para a frente, para trás, para a frente, para trás. "In your face, stupid
terrorists!", dá vontade de gritar.
Prossegui até à marina, já depois da baía. Um
quilómetro antes, a estrada eleva-se um pouco, junto ao castelo. Daqui, a visão
de uma cidade parcamente iluminada de amarelo, dominada pela tal risca de luz
branca, deslumbra. Quase nos obriga a parar. Quase. E corri em torno dos barcos
e iates, até uma zona de bares, onde voltei a inverter. Voltei a percorrer o Promenade
até cerca de metade e regressei para trás. Tinha que ir descansar, que no dia
seguinte o despertador seria implacável.
Nessa noite, durante um banho gelado, senti que
fizera um dos mais marcantes trajetos da minha ainda curta história como runner.
E o turismo também é isto!
Escusado será dizer que, após chegar ao hotel pelas
18h, tratei de mudar de roupa e sair em direção ao lago. O primeiro quilómetro,
de aquecimento, a descer, fez-se particularmente bem. Seguiu-se uma volta ao
lago, de águas verde-esmeralda, no meu ritmo de maratona. Não senti, nessa
fase, que estava a treinar em altitude. Cruzei-me com várias pessoas,
maioritariamente locais, muitas delas portuguesas, que davam a sua caminhada ou
faziam o seu jogging de fim de dia, aproveitando que a neve já
derreteu e ainda faz pouco frio.
Uma volta e um pouco depois, regressei. E subi o
quilómetro que antes descera, em que ganhamos quase cem metros de altitude. A
aldeia dispõe, inclusive, de escadas rolantes entre o lago e a zona comercial /
residencial. Eu dispensei a ajuda mecânica e subi pela estrada. Aqui, sim,
quando foi preciso pedir à máquina um pouco de esforço adicional, ela
queixou-se falta de oxigénio. No final, a estimativa de VO2 máximo baixara face
aos últimos treinos. O algoritmo da Garmin ainda não leva a altitude e
saturação de O2 na atmosfera para o cálculo desta variável.
Nessa noite senti-me bem, preenchido por poder
treinar naquelas paisagens. Um privilegiado.
Esta viagem incluiu também várias incursões por
Itália. Infelizmente, os locais de Itália que visitei não eram muito amigáveis
para um turista correr, pelo que me fiquei pelas passadeiras dos hotéis das
quais, na sua maioria, tenho a dizer pouca coisa boa, dado que a maioria das
salas de ginásio dos hotéis não dispunha de ar condicionado. Está claro que
após 50 minutos de corrida a minha desidratação chegava a níveis pouco
simpáticos.
Exceção feita ao hotel em que me alojei em Milão, e
no qual aproveitei para fazer um treino de colinas.
Quando, após trinta minutos de treino, começava a
pensar que a visão daquela consola a contar, segundo após segundo, o tempo
restante de treino era algo masoquista, uma voz ao meu ouvido deu-me uma dica -
cobrir a consola com a toalha e correr focado na forma. Era um dos meus podcasts de
corrida de eleição que curiosamente, naquele episódio, se dedicava aos treinos
em passadeira.
Mal ouvi a dica, atirei a toalha para cima da
consola e, de repente, todo o treino se tornou menos penoso. Apesar de não
poder treinar na rua, também em Itália senti que aprendia algo. E agora
partilho esta dica que, embora pareça básica, provavelmente não ocorre a alguns
dos leitores - como não me ocorreu a mim.
Como resumo deste verão, tenho um amplo conjunto de
treinos no calor húmido de Cuba, onde conheci o Andrés, sobre quem já vos
falei. Trago ainda a memória de seis dias sem treinar num festival de verão na
Alemanha onde, pensei, não faria sentido correr. Enquanto tomava o
pequeno-almoço, logo no primeiro dia, na aldeia vizinha, lá estava um pequeno
grupo de runners. Erro meu, aprendi. Correr é em todo o lado, em
quaisquer circunstâncias. E recordo as paisagens da Suíça, as quentes salas de
ginásio italianas, que se confundem com saunas, e a sempre marcante corrida na
Promenade des Anglais.
Agora retomo os treinos para a Maratona do Porto.
Vão a bom ritmo, e estou otimista.
Em suma, turismo também é, sem dúvida, Dar Corda
aos Sapatos!
Sem comentários:
Enviar um comentário