Durante estas férias de verão tive a oportunidade de visitar a ilha de Cuba.
Como não poderia deixar de ser, levei na bagagem sapatilhas, calções, camisolas e fiz-me aos treinos.
Treinei em locais muito distintos entre si, e guardei algumas recordações que partilho, pois correr, para quem ama este desporto, é também uma forma de turismo.
Durante as primeiras horas da manhã, em Havana, primeiro destino, não há muito trânsito automóvel. Os poluentes carros da década de 50 não estão na estrada. Saí do Hotel, na Plaza Central, rumo ao Paseo del Prado, que desci até chegar ao mar e ao famoso Malécon de Havana. O primeiro impacto da humidade subtropical foi avassalador. Como será possível correr nestas condições, pensei.
Aproveitei, durante o treino fácil, para ir espreitando, de um lado e outro do Paseo, as casas coloniais, recuperadas ao abrigo da classificação como Património Mundial pela UNESCO.

No Malécon, com uma extensão de sete quilómetros à beira-mar, via apenas pescadores, a esta hora da manhã. Do outro lado da estrada, fui apreciando o traçado da cidade a mudar, enquanto passava para Centro Habana, local com os únicos arranha-céus que vi no país.
Foi por esta altura que me tocaram no ombro. Era o Andrés. O jovem cubano, que está a terminar a licenciatura em Exercício Físico, acompanhou-me durante uns vinte minutos numa conversa bem agradável. Nos pés trazia umas sapatilhas de pano, sola rija. Nada adequadas à corrida. E, no entanto, era um atleta.
Ofereci-me para, no final da minha viagem, lhe deixar ficar as minhas sapatilhas, e combinámos ponto de encontro. Já regressamos a Havana.

Em Santiago, segundo destino, correr foi, em certa medida, mais difícil. A localização do hotel não era tão privilegiada, obrigando-me a correr cerca de 1,5 km em artérias movimentadas e poluídas da cidade até cruzar a Plaza de Marte e entrar ca Calle Enramadas, zona pedonal da cidade que culmina à beira-mar, onde pude continuar o meu treino mais descansado. No regresso ao hotel desviei-me das ruas principais, passei pelo Tribunal onde a revolta de 28 de julho se deu, à data pertencente ao Quartel de Moncada, assisti aos preparativos para o Carnaval da cidade, que se realizava nos dias seguintes, e cheguei ao hotel feliz, com alguma poluição nos pulmões e, graças a um suor que nunca tinha sentido antes, os mamilos em sangue, apesar de o treino ter sido de apenas 12 km.

Depois treinei em Gibara, pequena cidade no norte da ilha, onde cheguei até a ter a companhia de um pequeno cachorro, durante uns 100 metros. Gibara é provavelmente a cidade mais pitoresca e caraterística de Cuba. Pude apreciar as omnipresentes citações revolucionárias, pintadas nas paredes dos edifícios, as pequenas casas de pedra, com os habitantes desde cedo à porta, em cadeiras de baloiço, e fui cumprimentado muitas vezes. Os cubanos são um povo ávido de conhecimento exterior, e aproveitam todas as oportunidades para entabular conversa. Vários foram os que me perguntaram se eu era italiano. Devo considerar um elogio?
Ainda treinei em Sancti Spiritus, cidade que viria a receber os festejos do 26 de julho, dia da revolução. Por esse motivo, foi a cidade mais bem arranjada em que treinei.
Cruzei-me com coches - muitos. Bicicletas, peões, mas muito poucos automóveis. E isto faz de Cuba um sítio tão especial para correr. Aqui, sem dificuldades, a estrada é nossa - e os automóveis até se desviam.
Regressei a Havana, onde pude fazer um treino de intervalos, dado que já conhecia o percurso. Voltei, nesse mesmo dia, a cruzar-me com o Andrés. Reconheceu-me, claro, e marcámos horas à porta do meu hotel.

Entreguei-lhe as sapatilhas. Velhas para mim, mas tremendamente novas para ele, comparadas com as sapatilhas que, apesar de ter tomado um duche, ainda trazia calçadas. Aquelas são para ele, sem dúvida, as sapatilhas para tudo. Entreguei-lhe t-shirts, calções e meias. Ficaram bem entregues. E, de regresso a casa, descobri que o meu novo amigo é alguém famoso no New York Times,
numa leitura que recomendo.
Com esta viagem descobri que treinar fora da nossa zona de conforto é, sem dúvida, uma outra e maravilhosa forma de fazer turismo. Por esse motivo, no final do mês, no sul de França, Suiça e Itália, vou voltar a treinar nas ruas. E ser um pouco mais feliz a cada treino.
Não posso deixar de aconselhar todos os runners que tenham viagens de cerão marcadas a não se esquecerem de colocar o material na bagagem e correr.
Pela saúde, mas também porque a sensação de runners' high, nestas condições, é indescritível.
Dêem corda aos sapatos, onde quer que vão este verão!
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