Bom dia!
Sábado é dia de treino longo e hoje, mesmo antes de cair um dilúvio, somei mais 23 quilómetros e uns quase quinhentos metros de acumulado às minhas pernas.
E a verdade é que um treino longo permite-nos exercitar mais que os músculos. Por entre os pingos de suor, há espaço - e muito tempo - para exercitar o cérebro, o que me possibilita a escrita de mais um post enquanto os gémeos latejam. Possibilita, também, devido aos efeitos fisiológicos da corrida prolongada, alguns pensamentos algo estranhos. Decidi partilhá-los convosco, para que me possam chamar de tonto.
Saí de casa em passada calma. Sabia que havia, quilómetros adiante, uma parede para subir.
Seis quilómetros depois de sair de casa, lá estava eu, a trepar o monte mais alto das redondezas. É curioso como, sabendo eu que ia subir mais de 400 metros em cinco quilómetros, foi ainda nos primeiros metros de inclinação que o meu cérebro, meio tonto, me começou a sugerir descer. "Faltam muitos quilómetros para terminar o treino. O melhor é descer e fazê-los em terreno plano. Até podes aumentar o ritmo para tornar a corrida exigente. É só voltar para trás e tudo muda. Alivia o peso das pernas, começas a respirar melhor, o ritmo cardíaco baixa. Será uma sensação mesmo boa. Hoje estás num dia mau. Não precisas de passar por isto!" Felizmente já conheço o percurso e consegui, numa luta esquizofrénica, ripostar. "É só esta fase. Depois a inclinação diminui. Assim que passar o quilómetro dois da subida, é tudo mais fácil". "Mas não precisas. Esta é a semana de pico. Já levas 60 quilómetros e ainda faltam mais quinze..." Sempre que corro distâncias relativamente longas, faço muitos cálculos, para me entreter e garantir que não estou exausto. Se os cálculos começarem a parecer difíceis, é hora de parar. Mas adiante, continuei a ripostar para mim mesmo. "Eu sei. Tens razão. É um dia mau, falta muito, é uma semana dura, mas vou progredir só um pouco mais. Quando não conseguir, volto para trás".
E assim prossegi. Um quilómetro mais à frente - e acima - a vista começou a valer pelo esforço e, daí por diante, foi como se nunca mais tivesse que batalhar contra mim próprio. Mas o treino ainda estava no início.
Quase a chegar ao primeiro marco da subida, fui ultrapassado - muito lentamente - por um pequeno grupo de ciclistas. Cumprimentei-os, ofegante e quase sem conseguir articular as palavras. Responderam e, uns metros adiante, viraram. Enchi a garrafa de água numa bica próxima - por esta altura, já estava vazia - e continuei. Um pé à frente do outro.
Qual não foi o meu espanto quando, cerca de um quilómetro mais adiante, ao ouvir um grupo de vozes distante, nas minhas costas, olhei e vi que os ciclistas lá vinham, novamente, no meu encalço. Ainda levariam bons quilómetros para me ultrapassar. Com aquela inclinação, correr é quase tão rápido como pedalar.
Comecei a ultrapassar alguns peregrinos que se dirigiam para o santuário. Cumprimentei cada um deles, e todos me responderam. E foi aqui que, ao cruzar-me com outro runner, tive o pensamento profundo - ou não - do dia.
Quando me iniciei nestas coisas coisas da corrida, costumava usar o telemóvel para guardar dados. Aproveitava e ouvia música todo o caminho. Hoje, com o GPS no pulso, habituei-me a correr sem música, e até o prefiro. Nada contra quem ouve música. Hoje, quem ouve música enquanto corre deve pensar que eu sou maluquinho. Mas eu não sou tonto!
E por que é que me devem achar maluquinho?, perguntarão os leitores. Porque, desde que comecei a correr, desenvolvi o hábito de cumprimentar todos os desportistas com quem me cruzo. Aumenta a motivação de todos, é cordial e representa mais uns segundos de socialização.
Há normalmente três tipos de reações ao meu cumprimento. Há os que respondem e sorriem. Já nos conhecemos uns aos outros, já acenamos quando o ritmo o permite. Há os que vão a correr num ritmo que não lhes permite responder - been there. Done that! - e há os outros, que não reagem, mesmo podendo. Não acredito que seja por uma questão de educação. Na maioria, senão todos os casos, tal deve-se ao facto de irem, tranquilamente, a ouvir música. E os auriculares, muitas vezes, não se vêem. Achar-me-ão, simplesmente, maluquinho por ir a falar sozinho? Assumirão que vou a cantar? Ou nem sequer repararão nos meus lábios? Fico intrigado.
Por esta altura do raciocínio, pensei que estava mesmo tonto. Qual a relevância do assunto? Pouca, mas quando as pernas já pesam, e tão próximo do topo, qualquer banalidade é boa para os metros passarem sem foco nos sinais que o corpo nos dá, sem dar margem para pensar em voltar atrás, pois nesta fase não sei qual dos lados levaria a melhor. Concluí o raciocínio com um "Yo no soy tonto!", como que a dizer para mim mesmo que, independentemente do que os outros pensem - e o mais provável é que, a menos que vão num treino longo e os seus cérebros os levem a pensar da mesma forma desconcertante como eu estava, não pensem nem valorizem nada disto - este meu hábito de cumprimentar, mesmo que não me oiçam, é salutar.
Foi envolto nestes pensamentos que os ciclistas me voltaram a ultrapassar. Pedi-lhes boleia, na brincadeira, e o que vinha mais atrás, claramente em esforço, ainda teve forças para me motivar com um "Está quase!". "Está mais quase para vocês!", respondi. E foi quanto bastou, esta troca de palavras, para me animar e emprestar a coragem - e o desafio que faltava. É hoje. Vou subir os escadórios do santuário. Cerca de duzentos, creio. Mas a correr, e após ter subido todo o monte a bom ritmo. Vou chegar lá acima antes dos ciclistas. Comecei a subir as largas escadas em passo de corrida. O coração não disparou. Já não tinha mais folga, por esta altura. A cada lance corria uns metros na diagonal para recuperar forças para o lance seguinte e, em menos de nada, estava no topo.
Comecei a descer, pela estrada, e cruzei-me com os ciclistas. Chamaram-me batoteiro, vejam só!
Da descida há pouca história. Correr em bom ritmo, esticar as pernas, descansar o coração e cumprimentar alguns desportistas. Os que respondem, os que não podem, e os que pensam que eu sou tonto.
Cheguei. Feliz e a pensar que as pernas ainda davam mais uns quilómetros, mesmo depois deste treino tão íngreme. E entrei em modo de fim-de-semana. Depois disto, mereço um descanso. E um doce.
E o que fazer quando se está a descansar e a comer um doce? Escrever sobre o cansaço, pois claro. Se calhar, soy mismo tonto...
Bom fim-de-semana, bons treinos e boas provas! Abriguem-se da chuva e, se puderem, cumprimentem as pessoas com quem se cruzam no desporto.
Até já!
Tontos são os que não desfrutam destes momentos paz interior que só uma corrida nos pode proporcionar!!!
ResponderEliminarBons treinos e crónicas também...