quinta-feira, 12 de maio de 2016

Algodão, lesões e surdez

Chegou a primavera.

Ou pelo menos dizem que chegou, porque não parece. E, com ela, vêm os corredores de ocasião. Aqueles que querem perder peso, aqueles que acham cool mostrar que correm e aqueles que só querem aumentar o nível de fitness para o verão.
Como devem suspeitar, até porque há bem menos de um ano eu próprio me incluía no grupo acima, não tenho nada contra os runners de verão. Aliás, alguns deles acabarão, inevitavelmente, por se apaixonar pela superação e dedicação que a corrida nos merece.
Escrevo estas linhas apenas para alertar potenciais leitores para três questões básicas e facilemente evitáveis.
Começo pelo algodão. Nesta época do ano vêem-se corredores com calções e t-shirt de algodão. Lembro-me sempre dos meus primeiros treinos. E lembro-me das feridas de fricção nas virilhas. Compensa largamente comprar roupa de tecidos sintéticos, que minimiza a fricção e previne as assaduras. Há roupa desta bem em conta, nas entradas de gama de qualquer marca, e evitam-se problemas chatos de pele irritada.
Por outro lado - e isto já é mais grave - vê-se nesta altura do ano pessoas a correr em cima de qualquer calçado, e sem qualquer preocupação postural. Lembra-me do meu primeiro treino, das sapatilhas de ginásio - um número abaixo do meu -, das gigantescas bolhas que implacavelmente cobriram o peito do meu pé e das terríveis dores de costas. No calçado, aí sim, é inevitável gastar alguns euros. Pela nossa saúde.
Quanto maior o nosso excesso de peso, maior a necessidade de calçado que proporcione estabilidade. Para evitar as tão famigeradas lesões. Afinal de contas, apesar de parecer uma atividade de baixo impacto, a corrida é uma das atividades mais agressivas para o nosso corpo, sobretudo ao nível articular. E, para evitar lesões, é imprescindível algum aquecimento e estudo da postura durante a corrida. Contrair os abdominais e inclinar muito ligeiramente o corpo para a frente, com os ombros encaixados, é meio caminho andado, garantindo que o pé pisa o solo em linha com o eixo.
E a postura treina-se em treinos muito, muito lentos. Daqueles que dêem tempo para pensar em tudo. Pelo menos numa fase de arranque.
Por fim, os telemóveis com as apps de corrida. Quem não gosta da saudável competição com os amigos, ou até consigo próprio, proporcionada pelas apps? Nada contra. Eu também as uso (mesmo que já não corra com o telefone na manga). E nem tenho nada contra a utilização dos telefones e dos phones. Contudo desenvolvi ao longo destes meses de treino em que apenas esporadicamente encontramos outros corredores, o saudável hábito de cumprimentar as pessoas com que nos cruzamos. "Bom dia", "Boas" ou, se for um treino de séries ou de ritmo, um simples esticar de mão. Um gesto cordial e motivador. Habitualmente, os poucos corredores com quem me cruzo sorriem e retribuem - quando a iniciativa não é deles próprios - mas, nesta altura do ano, olhares fulminantes de pessoas arqueadas a correr em t-shirts de algodão trespassam-me, como se eu fosse um ET por cumprimentar desconhecidos que, como se não bastasse, vão em sofrimento e com bolhas nos pés. Pensarão, certamente, que gozo com eles. Malta, cumprimentar outros atletas não é apenas um capricho. Além de permitir um sentimento de partilha e comunhão, funciona como um motivador adicional, pois o nosso cérebro vai responder a um cumprimento com um pensamento do género "esta pessoa cruzou-se comigo, reparou no meu esforço, até na dor, e apesar de ir também ela em esforço despendeu uns momentos para me animar".
Experimentem a receita: comprem roupa sintética,umas boas sapatilhas (aconselhem-se quanto a qual o calçado ideal para vocês), estudem a postura e cumprimentem os atletas com quem se cruzam, com um sorriso nos olhos. O sorriso é fundamental. Mesmo em esforço..
Vai parecer que os vossos sapatos vão dar corda por vocês!

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