Caros leitores,
Este não é um post sobre suplementação. Nem sobre alimentação.
É apenas mais um relato, acerca de mais uma corrida, de mais um corredor.
Foi na segunda-feira da semana passada.
Acordei cedo, num bom hotel, e tomei um bom pequeno-almoço.
Vesti-me. A roupa já estava preparada desde a véspera. O boneco estava montado, de modo a garantir que não me esquecia de nada. Calções, t-shirt técnica - o dorsal já estava colocado de véspera -, meias, proteção para os mamilos, monitor de ritmo cardíaco, sapatilhas. Por baixo, hidratantes para proteger da irritação. Por cima, protetor solar.
Finalmente uma prova ao sol. A primeira, tendo em conta que comecei a treinar em julho do ano passado e que a minha primeira prova decorreu já em novembro.
Dirigi-me para a partida, fiz um breve aquecimento (nunca aqueço muito antes de uma Meia Maratona) e aguardei.
Sem WCs na partida, logo me apercebi que esta prova tinha tudo para me correr mal. Regresso de uma paragem completa, calor, e partida com a bexiga cheia. Fabuloso. E, no entanto, essa tal molécula que titula este post lá estava, para me dar ânimo e vontade de percorrer os mais de 21 km que me separavam da meta.
Foi a partida mais rápida de uma Meia-Maratona que já tive. Com menos de 1.000 participantes e uma boa colocação inicial, pouco mais de dez segundos volvidos sobre o tiro de partida e já o meu chip contava tempo.
A prova começou com alguns quilómetros urbanos. pelo centro da vidade. E foi logo no primeiro quilómetro que tive que parar pela primeira vez. O atacador da sapatilha com o chip desapertara-se. Fui rápido e cauteloso ao reapertar o atacador, mas terei perdido uma centena de posições, que rapidamente recuperei, voltando vagamento à mesma posição que abandonara.
Logo à frente, apesar de pouca gente a assistir à prova - mal divulgada nos meios locais - passámos pela multidão que se dirigia para a missa na catedral. Pouco apreciadores do desporto, resmungavam alguns, coisas como "Se fossem para o trabalho não iam eles a correr". Mal eles sabem que muitos dos que íamos naquela estrada acordamos mais cedo de manhã, dia após dia, para treinar, garantindo não só que somos pontuais no trabalho como, mais que isso, e graças à tal molécula, somos mais produtivos, pelo simples facto de corrermos de manhã cedo.
Após o terceiro quilómetro a prova passou por algumas viragens estranhas, com pilaretes e degraus, ao jeito de um urban trail não informado, capazes de deixar os mais incautos em mau estado. No grupo com que passei, felizmente, não houve problemas.
Salto até ao quilómetro cinco, primeiro abastecimento e segunda paragem do meu percurso.
Aqui, pela primeira vez na minha curta carreira de atleta, deparei-me com um cenário ilógico. No abastecimento, em vez de haver distribuição de garrafas de água, distribuíam-se pequenos copos plásticos cheios até meio. Naturalmente parei, emborquei quatro daqueles copos e prossegui.
Por esta altura já a bexiga apertava, mas decidi continuar, pois o belo percurso não se prestava a paragens higiénicas.
Com o suor a escorrer, ao quilómetro dez, e após ultrapassar um conjunto de corredores, decidi não aceitar mais os pequenos copos de água e dirigi-me às embalagens cheias de garrafas de água que repousavam no chão. Peguei numa garrafa e prossegui.
Os quilómetros seguintes foram percorridos pelas salinas, e foram penosos, ainda que belos. As constantes viragens, o facto de vermos sempre o pelotão, à frente e atrás, a serpentear, davam-nos uma perceção de que não saíamos do sítio. E, no entanto, correr por aquela beleza natural que são as salinas da Ria de Aveiro, é algo saboroso. Lamento apenas o pequeno troço junto à Auto-Estrada.
Ao quilómetro quinze voltei a utilizar a estratégia do quilómetro dez. Parei, agachei-me, recolhi uma garrafa e continuei. Mais à frente, porém, e por causa da tal ausência de WCs na partida, tive que me encostar para tornar esta Meia Maratona um momento de ainda maior comunhão com a natureza.
Rapidamente recuperei o meu lugar.
De regresso aos canais, duas passagens sobre pontes bastante simpáticas para a vista, e alguns comentários dos turistas nos moliceiros deram ânimo para os dois últimos quilómetros. A subir, a subir, a subir sem contar.
A prova terminava no mesmo local onde começou, no sentido contrário, após passagem pela magnífica estação da CP. O speaker de serviço dizia os nomes dos finishers, num gesto simpático, e o meu olhar, ao cruzar-se com o relógio, ficava surpreendidíssimo. Afinal, apesar dos percalços, das paragens e da inatividade, ainda conseguira mais um recorde pessoal da Meia Maratona, com um tempo abaixo de 1h35m - 1h34m57 ou, líquidos 1hh34m44.
Foi, sem dúvida, um momento de realização. Senti-me com mais potencial, com potencial para mais, e senti os frutos do treino e do suor que, quase diariamente, vou deixando escorrer-me pelo corpo.
Retirei o chip, recolhi os brindes, a medalha - pouco bonita, por sinal - e só depois tínhamos acesso a água.
Fui ao hotel, peguei no telefone para contar as novidades, tomei um duche e saí, mesmo a tempo de assistir à cerimónia de entrega de prémios e de ouvir o speaker pedir desculpa por uma alegada falta de água no final - que, felizmente, não me afetou.
Hoje, exatamente uma semana sobre a prova, preparo-me para a próxima dose de adrenalina, imprevistos, competição contra mim próprio e superação. Porque a Adrenalina - C9H13NO3 - também é viciante e um excelente motivador para treinarmos e darmos corda aos sapatos.
E vocês? Que elementos usam para se motivarem para os treinos?


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