domingo, 15 de maio de 2016

Rescaldo

Não. Este não é um rescaldo do título do Benfica.
Não, também não é um rescaldo da vitória do Sporting em Braga, com sabor a derrota.
Na verdade, por incrível que pareça, há vida para além do futebol, neste dia de decisões acerca do título de campeão português.
Na verdade, este post é acerca de mais uma corrida em que me inscrevi e competi. Hoje de manhã,

Este é o Rescaldo da XXI Meia Maratona do Douro Vinhateiro - A Mais Bela Corrida do Mundo.

Viajei no sábado para o Peso da Régua. Por mais que conheça o Douro Vinhateiro, é sempre deslumbrante descer a serra e começar a ver os socalcos. Vinha a perder de vista, tão ordenadamente plantada. E lá, em baixo, o Douro. Profundo e imponente.
Já estava ganha, a viagem, e ainda nem tinha comigo o dorsal.
Continuei a ganhar a viagem, precisamente, no Museu do Douro, local onde se levantavam os dorsais.
Uma pequena mas simpática expo Meia Maratona dava as boas vindas a todos quantos chegavam ao Douro. Numa varanda sobre o rio, o Museu recebia em festa, com folclore, cor e transmissão televisiva, os atletas.
A fila para check-in compensava, com um dorsal bonito, onde estava identificado o nome do atleta e o horário do transporte para a Partida da prova. Somava-se uma visita ao Museu e, no final, uma garrafa de Vinho do Porto, oferta de um dos patrocinadores.

Passei umas horas em Vila Real, onde dormi, uma vez que a capacidade hoteleira do Peso da Régua é inferior à dimensão desta prova, de um mediatismo e festa invejáveis.
Acordei cedo, ainda antes das cinco da manhã. Não tinha de ser assim, mas a ansiedade apoderou-se de mim e não preguei mais olho.
Levantei-me bem cedo, emborquei uns doces, água e leite e regressei à Régua. Tinha que apanhar o comboio das 08h para o apeadeiro improvisado junto à barragem de Bagauste. Antes, porém, ainda tive tempo para um café.
Ir de comboio para a partida de uma prova é, por si só, um momento engraçado. Quando o comboio parou, no meio "do nada", junto ao Douro, pensámos que se passaria algo mas, ao abrirem-se as portas, constatámos que estruturas metálicas cuidadosamente colocadas junto à linha funcionavam perfeitamente como apeadeiro. A carruagem da frente tinha até uma rampa para cadeiras-de-rodas.
Do apeadeiro até à barragem ainda havia uns quinhentos metros de caminhada.
A barragem debitava água a muito bom ritmo, mas a animação que se pedia ali, longe de tudo, era praticamente inexistente, como eram praticamente inexistentes as casas-de-banho portáteis que, nestas provas populares, têm a obrigação de abundar.
Esta falta de animação fez com que o tempo custasse a passar mas entretanto, pelas 09h30m, tive que me posicionar para a partida, uma vez que a quantidade de atletas que por ali se perfilavam já ia preenchendo a barragem.
Uma hora em pé, em amena cavaqueira com os atletas imediatamente a meu lado, sem aquecimento, era o prenúncio de uma má prova. Não se veio a confirmar.
Com cobertura televisiva em direto, o aparato de helicóptero, drones e câmaras era muito, o que também ajudou a que o tempo passasse mais depressa.
Ao tiro de partida, as minhas preocupações com eventuais engarrafamentos vieram a revelar-se infundadas. Afinal de contas, apesar dos trinta segundos que demorei a partir, comecei a rolar logo nos primeiros metros.
A prova divide-se entre quatro concelhos. Peso da Régua, Lamego, Armamar e Tabuaço, por aquela que foi já considerada a melhor estrada para se conduzir no mundo. Oito quilómetros na direção do Pinhão, com retorno na zona da Folgosa e meta no Peso da Régua.
Passado o encanto da paisagem inicial, foquei-me em fazer uma boa marca. Iria tentar baixar dos 90 minutos, pela primeira vez e, até ao quilómetro dez, tudo estava bem encaminhado. Aos treze quilómetros, a um ritmo de 4'13'', tinha alguns segundos de margem.
Infelizmente, o sol quente, a bexiga - que teimou em encher novamente -, e uma certa barreira psicológica fizeram com que, rapidamente, o relógio passasse para previsões na casa do minuto 31, 32.
Quando, aos 15 quilómetros, já perto da barragem, parei para urinar, soube imediatamente que não voltaria a baixar do minuto 30. Decidi gerir, mantendo um esforço  considerável para, ainda assim, bater o meu recorde pessoal.
Pelo caminho, antes da Régua, pouca gente. Ainda assim, destacam-se alguns piqueniques com grelhador (!) e um grupo de freiras que decidiu ir para a berma da estrada cantar, tocar e animar os corredores.
Depois de passar a barragem, num percurso praticamente todo ele plano e bom para rolar, comecei a ultrapassar pessoas inscritas na Mini Maratona. Pela primeira vez, nesta prova eram mais os inscritos na Mini do que na Meia. De longe!
Nesse mesmo momento, após uma curva do rio Douro, vê-se ao fundo a auto-estrada e a ponte alta que corta a paisagem. "A Régua é já ali", pensei.
Pois, mas a verdade é que o "já ali" engana. Muito. A ponte, por estar tão alta, vê-se a uma distância grande, e depois aproxima-se muito, muito devagar o que, para um cérebro já cansado, foi algo quase sádico.
Passada a auto-estrada chegava a multidão. E que multidão. Milhares de pessoas na berma a aplaudir, acarinhar, gritar pelos corredores. Uma visão poucas vezes possível em Portugal, mesmo nas grandes cidades.
Por esta altura, o calor apertava, e a organização estava de parabéns. Não faltava água. Apesar de os abastecimentos oficiais ocorrerem a cada cinco quilómetros, havia água em praticamente todos os quilómetros depois dos três. Ninguém terá tido problemas de hidratação, suponho.
Atravessar a ponte pedonal em sofrimento, a ver o Douro lá em baixo, foi mágico e doloroso. Aquele tabuleiro, com cerca de trezentos metros, parecia eterno, sobretudo após ter sido ultrapassado por uma atleta que andou quase toda a prova atrás de mim.
Após uma curva à esquerda, estávamos no centro da Régua, com gritos efusivos com fartura. Passámos a estação e descemos para o Museu. A descida foi muito bem-vinda e permitiu-me recuperar algumas posições que vinha a perder.
Estendeu-se, após o museu do Douro, uma passadeira verde, não sem antes passar pela humilhação de ver uma outra atleta feminina (entretanto voltara a ultrapassar a primeira) passar por mim em sprint, tipo bala. Ficou cinco posições à minha frente, ganhas nos últimos 500 metros. A prova dura não viria a acabar sem eu antes passar várias pessoas que já iam a caminhar, mesmo na passadeira verde. O calor, apercebi-me, fez estragos.
No final, 1h 32m 02s tornaram-se no meu novo recorde pessoal da distância. Aquém do objetivo principal, que ficará para uma próxima mas, ainda assim, suficientes para ficar no percentil dez da tabela classificativa.
Muitos brindes depois, sobrava-me a medalha de cortiça. Parece a gozar, mas é verdade. A medalha destas provas é de cortiça. Não sou adepto, mas devo reconhecer que é bonita.

Após um duche bem tomado e um almoço ali mesmo, regressei a casa cansado, exausto - até adormeci pelo caminho - mas com a sensação de que esta, se não for mesmo a mais bela corrida do mundo, é pelo menos uma séria candidata ao título. E está genericamente bem organizada. Aqui, não me importava de correr o dobro da distância.
Ah!, e no final ganhou o Sporting. Individual e por equipas.
Para a semana volto aos 10k. Será que ainda sei correr esta distância?! Vamos ver. Vou tentar...
... Dar Corda aos Sapatos!





Sem comentários:

Enviar um comentário