Correu-se ontem a II Meia-Maratona sunset de Caminha.E ontem atingi aquele tal objetivo que, apesar de só o ter verbalizado para esta prova, já se vinha a aproximar, paulatinamente. Ontem foi, sem dúvida, um dia memorável.
O contexto
Nunca tinha corrida a distância da Meia Maratona a um horário tão tardio. O dia, ao tiro de partida, já pesava nas pernas. Nas minhas e nas de muitos outros atletas. E o sol, esse, teimava em ainda aquecer. E a prova acabou por ser, na generalidade, lenta. Mas já lá vamos.
Caminha é uma pequena localidade, e o local de partida a chegada, o Terreiro central da Vila, ajudou a que o ambiente nas esplanadas em redor fosse animador. Todos os comerciantes vestiam camisolas da prova, e os atletas lá se iam concentrando, a lanchar, beber café ou, simplesmente, conviver.
A primeira lição
Vivi um grande percalço, e aprendi (mais) uma lição. Nunca colocar o equipamento no saco sem antes verificar tudo. Quero dizer: tudo. Aconteceu que, ao preparar-me para calçar as meias, reparei que o par estava mal feito, e as meias eram de modelo e ajuste diferente ao pé. Tive que correr com meias novas, a estrear, compradas ali em Caminha, mesmo sabendo que isso não se faz. Era a minha única hipótese. Não correu mal. Mas podia ter corrido.
A partida
Aqueci tranquilamente, com os noventa minutos em mente e, ao aproximar-me da zona de concentração dos atletas, vi que haveria pacemakers a cada quinze minutos. Infelizmente, estava longe do atleta que viria a ser o pacemaker dos 90 minutos.
Cem metros após a partida, já estava tranquilamente ao meu ritmo, e animado. Havia uma multidão nas ruas de Caminha para aplaudir os atletas. E, convenhamos, o apoio popular é meio caminho!
Assustei-me ao verificar que tinha corrido o primeiro quilómetro abaixo dos 4 minutos. Muito rápido, até para as minhas melhores expetativas. Relaxei as pernas e ultrapassei o pacemaker dos noventa minutos. Sentia-me bem, e sabia que, se fosse preciso, poderia abrandar e esperar por ele para me guiar rumo ao meu objetivo. Não o voltaria a ver. Felizmente.

Velocidade (pouco) cruzeiro
O segundo quilómetro foi lento demais, e os quilómetros 3 a 7, fruto de um bem-estar que me enganou, foram muito rápidos, todos abaixo dos 4m10s. Apenas encontrei o meu ritmo ao quilómetro 8, mas já era tarde demais, e viria a pagar a fatura.
O quilómetro 11 coincidia com uma ligeira mas comprida subida até Moledo, e aí, enquanto sofria, a meio da prova, aprendi algumas lições. Já as tinha lido, mas acredito que precisamos de passar pelas dores na primeira pessoa para perceber o significado e valor de algumas premissas.
A primeira era clara – arrancar com um ritmo rápido demais paga-se durante a prova. E tive, durante várias centenas de metros, que me concentrar na respiração, por forma a conseguir garantir oxigenação suficiente para manter um ritmo melhor que sofrível. A segunda – que apesar de ter perdido bastantes quilos, há algumas gorduras instaladas – qual estado português – que me continuam a pesar em subida.
O quilómetro 12 foi ligeiramente mais rápido, mas ainda assim acima do ritmo que me permitiria chegar abaixo dos 90 minutos. Felizmente, a viragem, perto do quilómetro 14, significou mais dois quilómetros ao ritmo certo. E eis que, ao 15, quebrei, pagando o excesso de adrenalina inicial. Voltei aos 04:30 com que fizera a subida, o que representaria um tempo muito acima do objetivo. Foquei-me na respiração, primeiro, e em pensar positivo, depois. O cérebro prega-nos partidas e tende a ser pessimista quando o desgaste se começa a acumular. Grande parte do segredo de provas de longa distância está em enganarmo-nos a nós próprios. A Meia Maratona, sendo uma prova rápida dentro da longa distância, obriga-nos a jogar rápido, também, contra o nosso cérebro.
Aproveitei a paisagem deslumbrante da costa norte do país para me ajudar na batalha contra a psique. E estava novamente controlado, e rápido, ao quilómetro dezasseis. A ganhar, inclusive, tempo para o meu objetivo. Depois começámos, calmamente, a reaproximar-nos de Caminha. Quilómetro 17 em sofrimento mas no ritmo certo. 18 e 19 a ganhar uns segundos. No 20 já esgotado, a perder – poucos – segundos. Depois foi acelerar rumo à meta.
O descontrolo
O último quilómetro foi de descontrolo total.
Corri grande parte da prova com preocupações de forma de corrida. Sei que a minha forma é deplorável, e que é um dos principais fatores que preciso de melhorar. A forma de corrida tem impacto, principalmente, ao nível da saúde. E também dos tempos. Correr, como é o meu caso, com os joelhos para dentro e os braços demasiado contraídos pode representar risco aumentado de lesões. Graças às fotografias é possível apercebermo-nos dos nossos erros, e realizar treino específico para os corrigir.
Nesta prova, fruto também de alguns treinadores de bancada que iam gritando palpites para a estrada, estive sempre alerta para a minha forma, e procurei corrigi-la várias vezes (ainda assim fui apanhado em várias fotos muito mal posicionado). O quilómetro 21, esse, foi para esquecer. Queria sprintar por aquela multidão fora. Sabia que o objetivo estava próximo. O relógio previa 1h29m06s, e eu queria, porque queria, concretizar este objetivo.
Por outro lado, a quantidade de pessoas na berma de uma prova que, sendo pequena, foi muito assistida, contribuíram para o descontrolo emocional. E, com a razão descontrolada, não há forma que resista. Nem respiração. Nem tampouco ritmo. Fui ultrapassado por dois atletas que, com uma tática de corrida claramente melhor que a minha, tinham algumas reservas que lhes permitiram sprintar, e vi o cronómetro na chegada à meta mais animada que já vivi. Parecia o vencedor! 1h29m03s. Brutos. 1h28m55s, dizia o relógio.
Celebrar é a parte mais importante de qualquer prova.
Preparamo-nos meses a fio. Suamos. Fazemos cedências e sacrifícios. Nós e os que nos rodeiam, por nós. E no final, tudo se resume àquele momento.
Cortei a meta. E agora? Agora há que hidratar. E repor eletrólitos. E comemorar junto dos outros finishers. E já agora, porque esta prova até tinha uma máquina de finos na meta, beber uma cerveja. Ou duas, vá.
Estava feito! Menos de um ano após começar a correr. Com uma paragem forçada pelo meio. Sem treinador. Sem clube. E, no entanto, ali estou eu, na meta, com mais uma medalha. A sexta Meia Maratona concluída. A primeira abaixo dos 90 minutos.
Foto para aqui, foto para ali. Depois há aqueles abraços que só os atletas conhecem. Transpirados, molhados, nada higiénicos, pouco viris e, no entanto, os mais saborosos. Afinal de contas, treinámos para aquele momento. E estabelecemos objetivos que nos permitem aprender que, dia após dia, com esforço, somos capazes de nos superar a nós próprios. E não há impossíveis. E da corrida é fácil extrapolar para a vida!
E depois de sair da zona de chegada, há que planear o próximo objetivo.
O próximo
O próximo será concluir a maratona do Porto. Em novembro. Claro que esse será o objetivo base. Vou tentar corrê-la em menos de 3h. É para isso que vou treinar. E vou estabelecer uns quantos objetivos intermédios. Mas para já, para já, seguem-se dois meses de treino menos estruturado. Correr “porque sim” e participar em provas “na brincadeira”. Relaxar. E em meados de julho arrancarei o plano de treino.
Até lá…
… Vamos Dar Corda aos Sapatos!
Sem comentários:
Enviar um comentário