Corri esta manhã a minha terceira Meia Maratona. Três meses depois da primeira. Esta foi, sem sombra de dúvidas, até à data, a mais marcante. Por diversas razões. Tantas que precisei de alguma calma e recuperação para escrever esta crónica.
Há três meses atrás, quando corri a Meia Maratona de Famalicão com o objetivo de terminar, era também dada a conhecer a data da primeira Meia Maratona da minha cidade natal e, nesse mesmo dia, com um tempo acima da 1h43m, decidi iniciar um plano de treino para, em casa, descer da 1h40m.
As semanas de treino foram passando e, a meio de janeiro, depois das S. Silvestre a bom ritmo, corria a meia maratona de Viana abaixo de 1h36m. Claramente, com as semanas de treino que ainda me faltavam, podia ser mais ambicioso que 1h40m. Mas nessa altura soube-se também o traçado da Meia Maratona de Braga, com maior acumulado positivo que as provas em que participei anteriormente.
Preparei-me. Subi montanhas em busca de força. E, nas últimas duas semanas, tive várias vezes que ludibriar o plano, saltando bastantes treinos, devido aos episódios que já por aqui relatei.
Arranquei esta semana a sentir-me em baixo, Melhorei paulatinamente e ontem, no aquecimento, senti as pernas fortes e a energia no topo.
Dormi uma boa noite de sono e hoje acordei bem.
Sentia um nervoso-miudinho, e apesar de ter preparado toda a indumentária de véspera, decidi mudar de sapatilhas em cima da hora. As Lunaracer ainda não tinham quilómetros suficientes acumulados e, quando as calcei, não me senti confortável. Esta foi, apenas, a primeira pequena traição motivacional do dia. Teria que correr com sapatilhas menos rápidas. As sapatilhas não correm por nós, bem o sei, mas ajudam-nos a sentir fortes e rápidos.
Saí de casa de estômago cheio - de água, bolachas e café. O meu pequeno-almoço "da sorte". Dirigi-me para o local da partida, a cerca de 3 quilómetros de casa, a caminhar.
Mais um café, cumprimentos da praxe, e sentia-me fantástico. Esta seria a prova para a qual treinara, e estava em forma.
Entrei na caixa de atletas que me era destinada. Ao contrário do que é habitual no meu ritual, faltavam apenas dois minutos para a partida. Nem deu para a adrenalina subir muito.
Subiria logo de seguida, quando me apercebesse que, claramente, muitos dos inscritos na caixa destinada a atletas mais rápidos que eu tinham claramente ludibriado o sistema. Para partirem da frente, para partirem com amigos, para serem chicos-espertos ou simplesmente porque se achavam capazes de melhor, o certo é que, no primeiro quilómetro, terei ultrapassado cerca de mil participantes - ou mais. A falta de civismo vê-se em todo o lado, e a corrida não é exceção. Se alguns se terão enganado na previsão, duvido seriamente que tenham sido todos, ou sequer a maioria. Como resultado, fechei o primeiro quilómetro em 4:51, bem acima do objetivo, e algo enervado com a gincana em que a prova se transformara.
Por volta dos dois quilómetros comecei a conseguir correr ao meu ritmo e, por essa altura, depois de uma rampa decrescente de motivação, tudo mudou. Olhei para o relógio, que me dava um tempo estimado abaixo de 1h30m. E os cinco quilómetros seguintes foram soberbos. A um ritmo que desconhecia, sentindo-me bem e confortável, corri até bater na grande parede da prova, por volta do quilómetro 9. Uma subida de cerca de um quilómetro com uns 8% de inclinação quebrava completamente comigo. Por essa altura, fiz um quilómetro em 5:30 e a previsão, mesmo com metade da prova corrida, subiu para 1h45m.
Foi também nesse momento que cometi o erro de ingerir gel no pico do esforço, durante a subida. Tudo pareceu uma enorme montanha, capaz de me fazer desistir, e em boa hora ouvi a voz de um ciclista que apoiava na rotunda onde se fazia a viragem "Agora é sempre a descer!"
Recuperei ritmo e em breve estava novamente a correr para 1h32m. Sol de pouca dura. A subida já tinha feito os seus estragos e raras ocasiões descia dos 4:30,
Nunca tinha tido a sensação de bater na parede. Foi hoje. Por volta do quilómetro dezasseis, quando esperava acelerar ligeiramente, só fui capaz de manter um ritmo razoável e rogar pragas às passagens pelos túneis. Um. Dois. Três. Quatro. Em igual número de quilómetros. Ao terceiro, ao ver e ultrapassar vários atletas que, por esta altura, iam a passo, pensei também eu desistir do meu objetivo. As pernas ainda não são de atleta.
Fui seguindo, enganando o meu cérebro e, nos últimos dois quilómetros, acompanhei um atleta que, acima dos cinquenta anos, apoiava aqueles que iam perdendo o ânimo, enquanto mantinha um ritmo invejável. Também eu senti o seu apoio para prosseguir.
O quilómetro vinte e um foi enorme. Tinha para aí cinco mil metros. E então, quando os insufláveis que assinalavarm o funil apareceram, após uma rotunda, estava feito.
Acelerei ligeiramente, saboreei os últimos metros e fiz questão de erguer os braços, não evitando bater na pessoa que corria ao meu lado. Apesar da dureza do percurso, do carrossel turbulento de emoções vividas naquelas duas horas e de ter ficado muito longe de um objetivo que, por momentos, julguei possível, tinha conseguido.
Cortava a meta com 1h35m07s, num ritmo de 4:31 / km.
Não deixava de ser um sabor agridoce pois, no meu íntimo sempre pensei que hoje ficaria abaixo das 1h35m. E quando as pernas nos falham, culpámos fatores externos. A subida, os túneis, os atletas que nos fazem perder preciosos segundos e ritmo. Todos estes motivos servem de desculpa para um insucesso parcial. E depois tinha um cérebro cansado e sem energia a tentar interpretar o contexto. Conseguira o meu objetivo de melhorar a marca de Famalicão. Conseguira melhorar a recente marca de Viana, apesar de um percurso bem mais duro e, ainda assim, não conseguira baixar do minuto 35, nem muito menos cumprir com a previsão ao quilómetro sete de descer do minuto 30. Aliás, pela primeira vez tinha corrido um parcial positivo. Ai, tanta informação para digerir. Que confusão.
Foi então que, já com a medalha ao peito, reencontrei os meus pais e a minha companheira, que me vinham felicitar pelo "excelente tempo". Para quem nos apoia, somos sempre campeões. E isso desarma-nos. Derrete-nos e faz-nos felizes. Como me fez feliz ouvir em vários pontos do percurso o meu nome, gritado por caras conhecidas que assistiam à prova. Uma prova com o selo de qualidade da runporto, corrida em casa, saborosa e que, para ser perfeita, precisa apenas de umas afinações no percurso (e eu até manteria a subida, para quebrar as pernas, mas retirava, definitivamente, os túneis).
Porque a corrida também é feita de dor, de dificuldades, de bolhas nos pés, de pedras no caminho, de subidas. Porque é feita de apoio, de pessoas simpáticas e lindas, de auto-superação, de um espírito de competição saudável. Porque consegui. Mais ou menos. Porque não consegui mas hei-de conseguir. Porque sim. Porque sim. Vou continuar a Dar Corda aos Sapatos!
Boas corridas!
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