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sábado, 5 de março de 2016

Objetivos

Após terminar a Meia Maratona de Braga, no fim-de-semana passado, pensei em ter uns dias de descanso, com corridas de manutenção e pouco mais. Afinal de contas, após um plano de treinos deste calibre, o corpo merecia e pedia um descanso.
Pois bem, se a corrida foi no domingo, segunda-feira de manhã ligavam-me a agendar a tal malfadada cirurgia sobre a qual já aqui escrevi.
É já segunda, dia 7. E aí, sim, vou forçosamente ficar algumas semanas afastado da estrada.
Ora, e o que fazer quando se recebe uma notícia destas? Dá-se corda aos sapatos! Mais tarde, esse mesmo dia, dei uma corrida de manutenção de cerca de dez quilómetros.
Se por um lado correr ajuda a aliviar a tensão provocada por estas notícias, por outro o meu objetivo automaticamente mudou e tornou-se mais proximal. A partir desse dia, o objetivo passou a ser de, no dia 7, estar na melhor condição aeróbica possível, para que a perda de condicionamento físico se dê a partir de um ponto elevado. E abandonei completamente o objetivo que estava ainda a começar a traçar, de um novo recorde pessoal da Meia Maratona, em Junho - ainda vou retomar este objetivo, mais tarde.
E assim fiz. Corri. Intervalos. Muitos intervalos. Acelera, recupera, acelera, recupera, acelera, recupera, acelera, recupera.
Quase toda a minha semana se deu nesta toada. Hoje não será exceção. A ideia é ajudar o corpo a aportar mais oxigénio aos músculos, pois este é um dos primeiros fatores a deteriorar-se quando estamos parados. Hoje não será exceção. Acelera, recupera, acelera, recupera, acelera, recupera.
Amanhã, na véspera da cirurgia, vou atirar-me a um treino longo. Para me distrair, para deixar os músculos exaustos e lhes dar uns dias extra de recuperação. E, depois, vou ficar uns dias de "papo para o ar".
O simples pensamento de parar de correr pela primeira vez desde que comecei os treinos é estranho.
Como será a redução de endorfinas? Como será, quando regressar à estrada, daqui a algumas semanas, sentir que regredi? Como será a recuperação do condicionamento físico?
Aliado à ansiedade da cirurgia per se, e do impacto que a mesma tem nas restantes esferas da minha vida, estou com os níveis de ansiedade nos píncaros.
O que fazer? Dar corda aos sapatos! Hoje e amanhã. Porque depois vem uma paragem forçada.
Vou calçar as sapatilhas. Até já!

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Correr é assim: um carrossel de emoções


Corri esta manhã a minha terceira Meia Maratona. Três meses depois da primeira. Esta foi, sem sombra de dúvidas, até à data, a mais marcante. Por diversas razões. Tantas que precisei de alguma calma e recuperação para escrever esta crónica.
Há três meses atrás, quando corri a Meia Maratona de Famalicão com o objetivo de terminar, era também dada a conhecer a data da primeira Meia Maratona da minha cidade natal e, nesse mesmo dia, com um tempo acima da 1h43m, decidi iniciar um plano de treino para, em casa, descer da 1h40m.
As semanas de treino foram passando e, a meio de janeiro, depois das S. Silvestre a bom ritmo, corria a meia maratona de Viana abaixo de 1h36m. Claramente, com as semanas de treino que ainda me faltavam, podia ser mais ambicioso que 1h40m. Mas nessa altura soube-se também o traçado da Meia Maratona de Braga, com maior acumulado positivo que as provas em que participei anteriormente. 
Preparei-me. Subi montanhas em busca de força. E, nas últimas duas semanas, tive várias vezes que ludibriar o plano, saltando bastantes treinos, devido aos episódios que já por aqui relatei.
Arranquei esta semana a sentir-me em baixo, Melhorei paulatinamente e ontem, no aquecimento, senti as pernas fortes e a energia no topo.
Dormi uma boa noite de sono e hoje acordei bem. 
Sentia um nervoso-miudinho, e apesar de ter preparado toda a indumentária de véspera, decidi mudar de sapatilhas em cima da hora. As Lunaracer ainda não tinham quilómetros suficientes acumulados e, quando as calcei, não me senti confortável. Esta foi, apenas, a primeira pequena traição motivacional do dia. Teria que correr com sapatilhas menos rápidas. As sapatilhas não correm por nós, bem o sei, mas ajudam-nos a sentir fortes e rápidos.
Saí de casa de estômago cheio - de água, bolachas e café. O meu pequeno-almoço "da sorte". Dirigi-me para o local da partida, a cerca de 3 quilómetros de casa, a caminhar.
Mais um café, cumprimentos da praxe, e sentia-me fantástico. Esta seria a prova para a qual treinara, e estava em forma.


Entrei na caixa de atletas que me era destinada. Ao contrário do que é habitual no meu ritual, faltavam apenas dois minutos para a partida. Nem deu para a adrenalina subir muito. 
Subiria logo de seguida, quando me apercebesse que, claramente, muitos dos inscritos na caixa destinada a atletas mais rápidos que eu tinham claramente ludibriado o sistema. Para partirem da frente, para partirem com amigos, para serem chicos-espertos ou simplesmente porque se achavam capazes de melhor, o certo é que, no primeiro quilómetro, terei ultrapassado cerca de mil participantes - ou mais. A falta de civismo vê-se em todo o lado, e a corrida não é exceção. Se alguns se terão enganado na previsão, duvido seriamente que tenham sido todos, ou sequer a maioria. Como resultado, fechei o primeiro quilómetro em 4:51, bem acima do objetivo, e algo enervado com a gincana em que a prova se transformara.
Por volta dos dois quilómetros comecei a conseguir correr ao meu ritmo e, por essa altura, depois de uma rampa decrescente de motivação, tudo mudou. Olhei para o relógio, que me dava um tempo estimado abaixo de 1h30m. E os cinco quilómetros seguintes foram soberbos. A um ritmo que desconhecia, sentindo-me bem e confortável, corri até bater na grande parede da prova, por volta do quilómetro 9. Uma subida de cerca de um quilómetro com uns 8% de inclinação quebrava completamente comigo. Por essa altura, fiz um quilómetro em 5:30 e a previsão, mesmo com metade da prova corrida, subiu para 1h45m. 
Foi também nesse momento que cometi o erro de ingerir gel no pico do esforço, durante a subida. Tudo pareceu uma enorme montanha, capaz de me fazer desistir, e em boa hora ouvi a voz de um ciclista que apoiava na rotunda onde se fazia a viragem "Agora é sempre a descer!"
Recuperei ritmo e em breve estava novamente a correr para 1h32m. Sol de pouca dura. A subida já tinha feito os seus estragos e raras ocasiões descia dos 4:30, 
Nunca tinha tido a sensação de bater na parede. Foi hoje. Por volta do quilómetro dezasseis, quando esperava acelerar ligeiramente, só fui capaz de manter um ritmo razoável e rogar pragas às passagens pelos túneis. Um. Dois. Três. Quatro. Em igual número de quilómetros. Ao terceiro, ao ver e ultrapassar vários atletas que, por esta altura, iam a passo, pensei também eu desistir do meu objetivo. As pernas ainda não são de atleta.
Fui seguindo, enganando o meu cérebro e, nos últimos dois quilómetros, acompanhei um atleta que, acima dos cinquenta anos, apoiava aqueles que iam perdendo o ânimo, enquanto mantinha um ritmo invejável. Também eu senti o seu apoio para prosseguir.
O quilómetro vinte e um foi enorme. Tinha para aí cinco mil metros. E então, quando os insufláveis que assinalavarm o funil apareceram, após uma rotunda, estava feito. 
Acelerei ligeiramente, saboreei os últimos metros e fiz questão de erguer os braços, não evitando bater na pessoa que corria ao meu lado. Apesar da dureza do percurso, do carrossel turbulento de emoções vividas naquelas duas horas e de ter ficado muito longe de um objetivo que, por momentos, julguei possível, tinha conseguido.
Cortava a meta com 1h35m07s, num ritmo de 4:31 / km. 


Não deixava de ser um sabor agridoce pois, no meu íntimo sempre pensei que hoje ficaria abaixo das 1h35m. E quando as pernas nos falham, culpámos fatores externos. A subida, os túneis, os atletas que nos fazem perder preciosos segundos e ritmo. Todos estes motivos servem de desculpa para um insucesso parcial. E depois tinha um cérebro cansado e sem energia a tentar interpretar o contexto. Conseguira o meu objetivo de melhorar a marca de Famalicão. Conseguira melhorar a recente marca de Viana, apesar de um percurso bem mais duro e, ainda assim, não conseguira baixar do minuto 35, nem muito menos cumprir com a previsão ao quilómetro sete de descer do minuto 30. Aliás, pela primeira vez tinha corrido um parcial positivo. Ai, tanta informação para digerir. Que confusão.
Foi então que, já com a medalha ao peito, reencontrei os meus pais e a minha companheira, que me vinham felicitar pelo "excelente tempo". Para quem nos apoia, somos sempre campeões. E isso desarma-nos. Derrete-nos e faz-nos felizes. Como me fez feliz ouvir em vários pontos do percurso o meu nome, gritado por caras conhecidas que assistiam à prova. Uma prova com o selo de qualidade da runporto, corrida em casa, saborosa e que, para ser perfeita, precisa apenas de umas afinações no percurso (e eu até manteria a subida, para quebrar as pernas, mas retirava, definitivamente, os túneis).

Porque a corrida também é feita de dor, de dificuldades, de bolhas nos pés, de pedras no caminho, de subidas. Porque é feita de apoio, de pessoas simpáticas e lindas, de auto-superação, de um espírito de competição saudável. Porque consegui. Mais ou menos. Porque não consegui mas hei-de conseguir. Porque sim. Porque sim. Vou continuar a Dar Corda aos Sapatos!

Boas corridas!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Aos altos e baixos

Quando decidi experimentar o plano de treino que estou a seguir para a Meia Maratona do próximo domingo, dia 28, tinha como único objetivo bater o meu recorde pessoal de 1h43m52s Entretanto, quando corria uma Meia Maratona de treino, em janeiro, pulverizei este tempo com 1h35m51. Aí, pensei que teria que levar o plano muito a sério de modo a poder, no espaço de um mês, voltar a bater este tempo, já mais ambicioso. O objetivo anterior deixava, de um momento para o outro, de fazer sentido. E fui seguindo o plano, com alguns ajustes devido à agenda, mas sempre com escrúpulos e disciplina, mesmo sob tempestades.
É frustrante seguir um plano destes porque, com tantas corridas em ritmo fácil, sentimos que não estamos a progredir. Espero estar enganado, e sei que o culminar deste plano de treino será apenas na corrida, mas há momentos em que a confiança e a motivação nos parecem querer fugir.
Esta foi uma semana cheia desses momentos.
Após um treino fácil na segunda-feira, em pista coberta, terça-feira, num dos últimos treinos de progressão, previsto para 16 km, comecei a sentir-me fisicamente debilitado após o quilómetro três. Parei e fui à casa-de-banho descobrir que estava com uma infeção urinária. O peso na bexiga a cada passada impedia-me de correr. E não completei - mal comecei, na verdade - o treino.
Quarta e quinta-feiras foram passadas com exames médicos - descobri que, após sete meses de treino, a minha frequência cardíaca em repouso é de 48 bpm -, e apenas sexta consegui retomar. O sentimento de impotência e de perda de condicionamento físico é avassalador. Como é possível, após três dias sem treinar, sentir-me tão em baixo? E a verdade é que, a uma semana da prova, não podia aumentar a intensidade do treino, sob pena de estar cansado no dia D.
Sábado foi dia de treino de ensaio. Roupa da competição, calçado da competição e ritmo de competição, mas com muito menor distância. Foi horrível. Senti-me mal. Senti que o esforço que fiz para manter o ritmo de corrida não seria sustentável por 21 quilómetros. Senti-me desidratar no primeiro treino com sol em vários meses. Treinar também é isto - sentir maus momentos e prepararmos-nos para eles. E pus em causa se iria conseguir completar o meu objetivo.
Hoje, enquanto descanso, sinto-me contente por ter melhorado o meu IMC. E foi essa a vitória desta semana - sem saber bem como, com tão poucos quilómetros, perdi massa gorda, ganhei massa muscular e perdi peso total.
Amanhã retomo os treinos, mas a adrenalina de voltar às provas já começou a circular. Pensar no pelotão, na animação daquelas pessoas, todas com o mesmo objetivo. Pensar no apoio popular - esperemos que ele apareça - e nas curtas conversas que uma prova de longa distância também permite. Pensar na festa, na meta, na medalha, nos sorrisos, são todos fatores motivadores. E dos bons. Daqueles que nos fazem conseguir apertar os atacadores, dia após dia após dia.
Por isso, mesmo quando a semana de treino corre mal, quando nos sentimos sem forma física, e quando duvidamos se seremos ou não capazes, esta é - mais uma - das belezas do nosso desporto - encontrar sempre coisas positivas. E são tantas!

Por isso, amanhã volto a Dar Corda aos Sapatos.
E tu?