sábado, 3 de setembro de 2016

Triângulo de corrida

Após algumas semanas sem escrever sobre treinos, provas ou desabafos, retomo as lides da blogosfera para um breve artigo sobre os meus treinos na recente viagem que fiz pelo Sul de França, Alpes Suíços e norte de Itália.
Mas, antes, não podia deixar de mandar o meu bitaite acerca da febre dos Pokémon, que também me tem vindo a afetar. 
Confesso que também eu, quando o jogo chegou a Portugal, descarreguei a app, e fiz questão de experimentar a caça ao monstro de bolso. Não me cativou, mas vi no jogo um bom meio de entretenimento, com potencial para fazer os mais sedentários saírem do sofá. Até que me apercebi que não. Afinal, há peças do jogo que permitem que os monstros vão ter com os jogadores a locais que rapidamente foram tacitamente assinalados. Nada contra, ainda assim, apesar de não deixar de estranhar a visão de dezenas - centenas? - De pessoas sentadas, juntas, num mesmo espaço, cada uma encafuada no seu telemóvel, desperdiçando uma boa oportunidade de convívio e socialização. 
Mas adiante, que este blogue não é sobre isto. O que me transtorna, sobretudo nos treinos de recuperação, nos quais privilegio rotas tradicionalmente mais movimentadas, é ver que, ao invés de pontualmente me cruzar com alguém que, distraído pelo telefone, vem na minha direção, ocupando toda a via, esse acontecimento é, agora, constante, tal a quantidade de pessoas que deambulam encafuadas no Pokémon. E se não têm cuidado com outros peões, terão cuidado com automóveis?

Bem, adiante. Vamos até França, que se faz tarde.
No passado agosto viajei para Nice. Sabia de antemão que a Promenade des Anglais, junto à Baía dos Anjos, seria um potencial local para um treino longo. Mas teria tempo, entre tantos compromissos que os circuitos organizados habitualmente comportam?
Consegui ir treinar no domingo, depois de jantar. 
Saí do hotel pelas 21h30m. Corri pouco mais de 21 km em pouco menos de duas horas. 
O percurso é altamente recomendável. A Promenade, larga, tem cerca de sete quilómetros de extensão. Percorri-os a todos, até à ponta, onde encontramos o aeroporto, pequeno, onde vemos estacionados jatos privados dos milionários que por aquela zona costumam passear. 
Regressei. Dali, da ponta, a visão daquela fila interminável de grandes lampiões, iluminando a baía com uma luz branca, intensa, a descrever uma curva suave, dá vontade de correr sem fim.
O caminho parece dividido por culturas distintas. Junto ao aeroporto predominam os árabes, com as suas vestes tradicionais, a passear, em família, afastados da confusão do turismo. Na zona central encontramos os africanos, em menor quantidade. 
E foi então, após passar a área onde passeavam os africanos, que me deparei com aquela visão. Não era a primeira vez que a via. Já a tinha visto de tarde, e à ida para o aeroporto, durante este mesmo treino. Mas não lhe consegui ficar indiferente. De ambos os lados da Promenade, milhares de velas, fitas brancas, bandeiras de todas as nacionalidades, muitas delas árabes, ursos de peluche, flores, ofertas. Ofertas sem fim às vítimas de um atentado - mais um - inexplicável e escabroso. É bom que a memória se mantenha viva, mas é melhor ainda ver como uma cidade que, há exatamente um mês, vivera um dia sangrento e de profundo luto, se reerguera. A Promenade, aqui, entra na sua zona mais turística e movimentada. E continua. Gente, gente, gente, como que a provar aos terroristas que perderam mais essa batalha. A cidade, além do memorial, prosseguiu com uma naturalidade esmagadora. Também eu me senti parte desta manifestação, ao percorrer este trajeto no meu treino. Para a frente, para trás, para a frente, para trás. "In your face, stupid terrorists!", dá vontade de gritar.
Prossegui até à marina, já depois da baía. Um quilómetro antes, a estrada eleva-se um pouco, junto ao castelo. Daqui, a visão de uma cidade parcamente iluminada de amarelo, dominada pela tal risca de luz branca, deslumbra. Quase nos obriga a parar. Quase. E corri em torno dos barcos e iates, até uma zona de bares, onde voltei a inverter. Voltei a percorrer o Promenade até cerca de metade e regressei para trás. Tinha que ir descansar, que no dia seguinte o despertador seria implacável. 
Nessa noite, durante um banho gelado, senti que fizera um dos mais marcantes trajetos da minha ainda curta história como runner. E o turismo também é isto!

Dias mais tarde, a 1.800m de altitude. Sankt-Moritz, nos alpes suíços. É uma típica aldeia de montanha vocacionada para o turismo de inverno. Com chalés, lojas de marca, e rodeada pelas montanhas e teleféricos. No sopé da aldeia, o lago e, em torno do lago, uma pista, com cerca de seis quilómetros de perímetro. 
Escusado será dizer que, após chegar ao hotel pelas 18h, tratei de mudar de roupa e sair em direção ao lago. O primeiro quilómetro, de aquecimento, a descer, fez-se particularmente bem. Seguiu-se uma volta ao lago, de águas verde-esmeralda, no meu ritmo de maratona. Não senti, nessa fase, que estava a treinar em altitude. Cruzei-me com várias pessoas, maioritariamente locais, muitas delas portuguesas, que davam a sua caminhada ou faziam o seu jogging de fim de dia, aproveitando que a neve já derreteu e ainda faz pouco frio.
Uma volta e um pouco depois, regressei. E subi o quilómetro que antes descera, em que ganhamos quase cem metros de altitude. A aldeia dispõe, inclusive, de escadas rolantes entre o lago e a zona comercial / residencial. Eu dispensei a ajuda mecânica e subi pela estrada. Aqui, sim, quando foi preciso pedir à máquina um pouco de esforço adicional, ela queixou-se falta de oxigénio. No final, a estimativa de VO2 máximo baixara face aos últimos treinos. O algoritmo da Garmin ainda não leva a altitude e saturação de O2 na atmosfera para o cálculo desta variável.
Nessa noite senti-me bem, preenchido por poder treinar naquelas paisagens. Um privilegiado. 
Esta viagem incluiu também várias incursões por Itália. Infelizmente, os locais de Itália que visitei não eram muito amigáveis para um turista correr, pelo que me fiquei pelas passadeiras dos hotéis das quais, na sua maioria, tenho a dizer pouca coisa boa, dado que a maioria das salas de ginásio dos hotéis não dispunha de ar condicionado. Está claro que após 50 minutos de corrida a minha desidratação chegava a níveis pouco simpáticos.
Exceção feita ao hotel em que me alojei em Milão, e no qual aproveitei para fazer um treino de colinas. 
Quando, após trinta minutos de treino, começava a pensar que a visão daquela consola a contar, segundo após segundo, o tempo restante de treino era algo masoquista, uma voz ao meu ouvido deu-me uma dica - cobrir a consola com a toalha e correr focado na forma. Era um dos meus podcasts de corrida de eleição que curiosamente, naquele episódio, se dedicava aos treinos em passadeira. 
Mal ouvi a dica, atirei a toalha para cima da consola e, de repente, todo o treino se tornou menos penoso. Apesar de não poder treinar na rua, também em Itália senti que aprendia algo. E agora partilho esta dica que, embora pareça básica, provavelmente não ocorre a alguns dos leitores - como não me ocorreu a mim.

Como resumo deste verão, tenho um amplo conjunto de treinos no calor húmido de Cuba, onde conheci o Andrés, sobre quem já vos falei. Trago ainda a memória de seis dias sem treinar num festival de verão na Alemanha onde, pensei, não faria sentido correr. Enquanto tomava o pequeno-almoço, logo no primeiro dia, na aldeia vizinha, lá estava um pequeno grupo de runners. Erro meu, aprendi. Correr é em todo o lado, em quaisquer circunstâncias. E recordo as paisagens da Suíça, as quentes salas de ginásio italianas, que se confundem com saunas, e a sempre marcante corrida na Promenade des Anglais. 

Agora retomo os treinos para a Maratona do Porto. Vão a bom ritmo, e estou otimista.

Em suma, turismo também é, sem dúvida, Dar Corda aos Sapatos! 

domingo, 31 de julho de 2016

Correr em Cuba

Durante estas férias de verão tive a oportunidade de visitar a ilha de Cuba.
Como não poderia deixar de ser, levei na bagagem sapatilhas, calções, camisolas e fiz-me aos treinos. 
Treinei em locais muito distintos entre si, e guardei algumas recordações que partilho, pois correr, para quem ama este desporto, é também uma forma de turismo.
Durante as primeiras horas da manhã, em Havana, primeiro destino, não há muito trânsito automóvel. Os poluentes carros da década de 50 não estão na estrada. Saí do Hotel, na Plaza Central, rumo ao Paseo del Prado, que desci até chegar ao mar e ao famoso Malécon de Havana. O primeiro impacto da humidade subtropical foi avassalador. Como será possível correr nestas condições, pensei. 
Aproveitei, durante o treino fácil, para ir espreitando, de um lado e outro do Paseo, as casas coloniais, recuperadas ao abrigo da classificação como Património Mundial pela UNESCO. 
No Malécon, com uma extensão de sete quilómetros à beira-mar, via apenas pescadores, a esta hora da manhã. Do outro lado da estrada, fui apreciando o traçado da cidade a mudar, enquanto passava para Centro Habana, local com os únicos arranha-céus que vi no país. 
Foi por esta altura que me tocaram no ombro. Era o Andrés. O jovem cubano, que está a terminar a licenciatura em Exercício Físico, acompanhou-me durante uns vinte minutos numa conversa bem agradável. Nos pés trazia umas sapatilhas de pano, sola rija. Nada adequadas à corrida. E, no entanto, era um atleta.
Ofereci-me para, no final da minha viagem, lhe deixar ficar as minhas sapatilhas, e combinámos ponto de encontro. Já regressamos a Havana.

Em Santiago, segundo destino, correr foi, em certa medida, mais difícil. A localização do hotel não era tão privilegiada, obrigando-me a correr cerca de 1,5 km em artérias movimentadas e poluídas da cidade até cruzar a Plaza de Marte e entrar ca Calle Enramadas, zona pedonal da cidade que culmina à beira-mar, onde pude continuar o meu treino mais descansado. No regresso ao hotel desviei-me das ruas principais, passei pelo Tribunal onde a revolta de 28 de julho se deu, à data pertencente ao Quartel de Moncada, assisti aos preparativos para o Carnaval da cidade, que se realizava nos dias seguintes, e cheguei ao hotel feliz, com alguma poluição nos pulmões e, graças a um suor que nunca tinha sentido antes, os mamilos em sangue, apesar de o treino ter sido de apenas 12 km. 

Depois treinei em Gibara, pequena cidade no norte da ilha, onde cheguei até a ter a companhia de um pequeno cachorro, durante uns 100 metros. Gibara é provavelmente a cidade mais pitoresca e caraterística de Cuba. Pude apreciar as omnipresentes citações revolucionárias, pintadas nas paredes dos edifícios, as pequenas casas de pedra, com os habitantes desde cedo à porta, em cadeiras de baloiço, e fui cumprimentado muitas vezes. Os cubanos são um povo ávido de conhecimento exterior, e aproveitam todas as oportunidades para entabular conversa. Vários foram os que me perguntaram se eu era italiano. Devo considerar um elogio?


Ainda treinei em Sancti Spiritus, cidade que viria a receber os festejos do 26 de julho, dia da revolução. Por esse motivo, foi a cidade mais bem arranjada em que treinei.
Cruzei-me com coches - muitos. Bicicletas, peões, mas muito poucos automóveis. E isto faz de Cuba um sítio tão especial para correr. Aqui, sem dificuldades, a estrada é nossa - e os automóveis até se desviam.

Regressei a Havana, onde pude fazer um treino de intervalos, dado que já conhecia o percurso. Voltei, nesse mesmo dia, a cruzar-me com o Andrés. Reconheceu-me, claro, e marcámos horas à porta do meu hotel.
Entreguei-lhe as sapatilhas. Velhas para mim, mas tremendamente novas para ele, comparadas com as sapatilhas que, apesar de ter tomado um duche, ainda trazia calçadas. Aquelas são para ele, sem dúvida, as sapatilhas para tudo. Entreguei-lhe t-shirts, calções e meias. Ficaram bem entregues. E, de regresso a casa, descobri que o meu novo amigo é alguém famoso no New York Times, numa leitura que recomendo. 

Com esta viagem descobri que treinar fora da nossa zona de conforto é, sem dúvida, uma outra e maravilhosa forma de fazer turismo. Por esse motivo, no final do mês, no sul de França, Suiça e Itália, vou voltar a treinar nas ruas. E ser um pouco mais feliz a cada treino.

Não posso deixar de aconselhar todos os runners que tenham viagens de cerão marcadas a não se esquecerem de colocar o material na bagagem e correr.
Pela saúde, mas também porque a sensação de runners' high, nestas condições, é indescritível. 
Dêem corda aos sapatos, onde quer que vão este verão!

domingo, 10 de julho de 2016

Um ano a Dar Corda aos Sapatos

Fez ontem, precisamente dia 9 de julho, um ano que atei pela primeira vez umas sapatilhas e decidi experimentar a corrida. 
O objetivo era simples: ir desde minha casa até casa dos meus pais, onde iria jantar, a correr.
Não consegui, nem perto, ficando-me pelos cerca de 2 km de corrida.
Em julho voltaria a correr mais três vezes. A última, no dia 21, ultrapassou os cinco quilómetros. Mas a verdade é que apenas em setembro comecei a correr com mais regularidade, 
Entretanto, muita coisa mudou. Informei-me, comecei a fazer alguns planos de treino mais dedicados, participei em várias provas populares. Ainda que sem treinador, tenho batido recordes pessoais com frequência e participado em provas de estrada progressivamente mais exigentes.
Ontem, para comemorar, fiz um treino longo de 30 km, com pouco mais de 300m de acumulado. Com o calor, acabei por me sentir desidratado e fazer bastante esforço em determinada parte do treino, que foi bem lento. 
Mas na verdade gostava de dedicar esta reflexâo à evolução emocional que senti durante este ano. 
Comecei por correr para baixar peso. E perdi. Mais de 10 quilos, nos primeiros meses.
Essa deixou, contudo, rapidamente de ser a minha principal motivação para correr. 
Não demorou muito até começar a sentir benefícios ao nível da saúde. Muito menos ansiedade, maiores níveis de atenção, até a minha memória de ratinho tem vindo a melhorar.
Fiz os testes físicos para garantir que podia aumentar o nível de esforço, e nessa altura descobri a competição. Conhecer pessoas novas, interessantes e com a mesma paixão pelas corridas, conhecer lugares belos e passar por eles a correr. Tentar superar-me a cada corrida, a cada treino. Superar os pensamentos negativos nos dias em que os treinos não correm bem - como ontem - e festejar com as conquistas dos dias bons. Cumprimentar pessoas na rua, ser aplaudido nas provas, e descobrir que o running, afinal, não é um desporto assim tão barato - a cada prova e a cada par de sapatilhas. É, ainda assim, seguramente o desporto mais em conta que podemos praticar. 
Ontem, um ano depois do meu primeiro treino, passei o dia quente à espera que o sol baixasse para me superar uma vez mais. Saí para a estrada, corri trinta quilómetros e, no fim, dei-me a mim mesmo alguns minutos para celebrar, antes de ir tomar um duche. 
Hoje, exatamente um ano depois do primeiro dia de descanso como runner, sou mais um embaixador desta prática tão saudável, que nos permite viver a natureza, conhecer os nossos limites e vencê-los, dia após dia. Hoje não vou dar corda aos sapatos!

Até amanhã!


domingo, 3 de julho de 2016

Explosivo

Caros leitores,

Escrevo-vos a um domingo de manhã, altura do fim-de-semana tipicamente dedicada às provas ou aos treinos longos.
Escrevo-vos num dia sem prova, após um sábado com duas, bem atípicas e caricatas.
Escrevo-vos após três cronometragens nas quais fiquei, em cada uma delas, na segunda metade da tabela classificativa masculina. Escrevo-vos com o orgulho ferido de alguém que sabe ter um longo caminho a percorrer no que diz distância à força e capacidade explosiva.

Após todo este drama, que já terá conquistado os corações mais sensíveis e levado os menos emotivos a abandonar o blogue, vamos à descrição das provas em que participei ontem.
De manhã, pels 10h, corria o Porto a Subir.
Organizado pela Runporto, trata-se nada menos que de uma subida da ribeira até à igreja de Santa Clara, primeiro pelas escadas do Codeçal e depois pelas dos Guindais. Duas das escadarias mais típicas da Invicta.
Subir escadas requer um poder explosivo, massa muscular e fibras de contração rápida em abundância. Sei, porque não é esse o meu tipo de treino, que não tenho nenhuma das caraterísticas. Tenho, aliás, focado parte do meu treino muscular nas últimas semanas a fortalecer a musculatura das ancas, de modo a corrigir uma deficiente forma de corrida.
Ainda assim participei, e diverti-me. Muito.
A primeira subida era percorrida pelo Codeçal. Os atletas partiam separados por escassos segundos, e a madrinha da prova, Aurora Cunha, lá estava a incentivar os seus "campeões".
Nestas primeiras escadas senti-me bem e senti uma resposta muscular positiva.
Para a segunda subida, pelos Guindais, a porca torceu o seu rabo. Cansado do primeiro esticão, lá me atirei às escadas, acabando por ter que percorrer alguns lances a passo. Curioso ver, sobretudo nos Guindais, os populares à janela a incentivar os atletas, mas com palavras de ordem à moda do Porto. "Resmunga menos e corre mais, carago!", "Mexe-me esse cú!".
No final da prova, bem pequena, com cerca de 200 participantes, e após um curto mas animado convívio, a equipa do Trial Portugal animou os Guindais, subindo, em bicicleta e sem pôr o pé no chão, toda a escadaria, que depois voltariam a descer, da mesma forma.
Realço desta prova uma das mais belas t-shirts que já recebi, e que viria a envergar na prova da tarde.
Regressei a casa, comi uma rápida sandes e segui para o Bom Jesus do Monte, em Braga, onde se disputaria a etapa de verão da Corrida Contra Relógio dos Escadórios do Bom Jesus do Monte.
Após 400 degraus (divididos pelas duas subidas) de manhã, de tarde subiria quase 600, de seguida.
Assim foi, numa prova ainda mais pequena, com cerca de 80 participantes, muita animação, um convívio mordaz no início e no final, e uma escadaria que é, sem dúvida, a mais bela do nosso Portugal, em termos arquitetónicos.
Organizada pela ADN, com o apoio do .COM, a subida carateriza-se por uma simplicidade encantadora, altamente recomendável.
Quanto à subida, se a primeira metade, por patamares, se "vai subindo", a chegada ao ponto em que começa o ziguezaguear das escadas conhecido dos postais turísticos termina com as poucas reservas que possamos ter.
Subi, subi, subi, sempre a correr, até que tive que subir um patamar sem correr. Não deu mais. Recuperei e subi, subi, subi.
Após a prova e cerca de noventa minutos de convívio com outros atletas, enquanto observávamos o casamento que decorria no santuário, regressei. Ainda fiz algum treino de core para complementar o treino muscular das três subidas. Apesar de cansado e frustrado por perceber que provas explosivas não são, de todo, a minha praia, não pude deixar de fotografar os dois dorsais do dia, lado a lado, e de sentir a realização de quem decidiu sair da zona de conforto com sucesso. Duas vezes no mesmo dia.
Até podia ter ficado em último, mas o dia estava ganho. Pelo esforço, pela superação, pelo convívio, pela beleza arquitetónica das três subidas.
E, com estas provas, sei que treinei a minha velocidade, ainda que "disfarçada".
Hoje vou voltar à estrada. Vou rolar uma hora ao fim do dia, para recuperar. O treino longo salta para segunda-feira, por razões óbvias.
Agora é hora de descansar dos treinos. Até já!

domingo, 26 de junho de 2016

Fim de época

Terminou hoje a época de Meias Maratonas. Já terminou tarde. E com calor.
Mas terminou num dos mais belos cenários possíveis.
Antes, porem, uma breve resenha do 3º Grande Prémio de Priscos, prova com pouco mais de 9.000m de extensão, decorrida há duas semanas, e que levou um pequeno grupo de atletas a percorrer as estradas que ligam o centro de Braga à freguesia limítrofe de Priscos.
Terminei num vigésimo lugar que me soube a algo estranho, pois além do percurso ser pouco atrativo, em plena estrada Nacional, a organização decidiu oferecer troféus a todas as categorias desde os Benjamins aos Veteranos >65, mas esqueceu-se de entregar medalhas aos finishers, pelo que a única coisa que guardo de recordação desta prova é um dorsal - que por sinal rasgou após apanhar alguma água.
Quanto à prova de hoje, a segunda do circuito EDP Running Wonders, essa esteve ao nível que se esperava. Comecemos pelos aspetos a melhorar, deixando fluir o texto mais descritivo no final.
Chegados à cidade-berço, íamos preparados para que o local de levantamento dos dorsais fosse distante da partida - mais de um quilómetro. Tal revelou-se um problema para alguns, os mais incautos, uma vez que, desde cedo, se deixou de poder circular de automóvel entre os dois pontos.
Já com o dorsal na mão e bastante tempo disponível, era hora de um segundo pequeno-almoço e café.
Bem hidratado, procurei as habituais casas-de-banho portáteis, tão íntimas amigas dos atletas, sem sucesso. Aparentemente, confiando na localização central da prova, a organização esqueceu-se deste tão importante elemento de uma corrida, obrigando-nos a consumir (terceiro pequeno-almoço?) num café para poder utilizar a casa-de-banho.
E, daqui por diante, poucas oportunidades de melhoria há a assinalar. O percurso, com cerca de 200m de desnível positivo acumulado, não se presta a grandes tempos. O empedrado do Centro Histórico também não, e muito menos o calor abrasador, a roçar os trinta graus nos quilómetros finais. Mas tudo isso é compreensível quando estamos a falar de uma prova que, por ser disputada em Património Mundial da Humanidade, e no fim-de-semana em que a cidade-berço celebrou o dia da Batalha de S. Mamede, em 24 de junho de 1128, não podia decirrer de outra forma.
Pouco aquecimento, para não começar logo a desidratar, e uma partida rápida. Demasiado rápida, que viria a pagar na segunda metade da prova. Algum público a assistir, sobretudo no Largo do Toural e Igreja de S. Gualter dado que, por aqui, a prova passava quatro vezes.
Após o primeiro quilómetro, cuja dificuldade foi a adaptação ao empedrado, com muitos atletas a fugirem para o passeio - eu não fui exceção -, iniciou-se o quebra-pernas do centro histórico, com um piso muito irregular, subidas e descidas alternando constantemente e curvas apertadas.
De notar que Guimarães recebe, por estes dias, a sua feira medieval, a Feira Afonsina. As ruas estão caraterizadas à época, havendo bastante palha espalhada pelo chão. Algumas das tendas abriam ao público por altura da nossa passagem, o que animou ainda mais a prova.
De repente, ao quilómetro cinco, vemos, imponente, o Castelo de D. Afonso Henriques, com a bandeira da cruz azul em pano branco a descer a Torre de Menagem. E a subida termina, tão rápido como começou.
Era hora de descer. Novas ruas do centro histórico da cidade, numa descida bem técnica. Regressar ao Largo do Toural e, ao quilómetro sete, abandonar a cidade, percorrendo nos quilómetros seguintes algumas estradas asfaltadas.
Foi mais ou menos aqui que baixei o ritmo, para perto dos 04:30 / km. O calor e esforço da subida quebraram completamente o meu esforço. Ainda bem que optei por fazer tempo em Caminha. Assim posso aproveitar e desfrutar desta prova, pensei. E se bem o pensei, melhor o fiz. E segui nesta toada calma.
Desta fase destaco o Parque da Cidade e a volta na pista do estádio, com uma escola de Samba à entrada - e saída - a animar a malta. A pista foi muito bem-vinda para relaxar as pernas.
Por esta altura já tinha agradecido várias vezes os abundantes abastecimentos - a cada 2 km -, as mangueiras de água dos autotanques dos bombeiros e até mesmo as mangueiras de água de simpáticos populares.
O ritmo esse, mesmo que eu tivesse vontade de o aumentar, mantinha-se baixo. O calor intenso que se sentia cobrava dividendos.
Pelos quilómetros 18 e 19 subíamos novamente para a cidade, subidas estas com algum grau técnico associado.
O último momento alto da prova deu-se no Estádio Dom Afonso Henriques, com uma volta ao relvado, a marcar a entrada no quilómetro vinte. O estádio do Vitória, no qual nunca tinha entrado, fica algo "afundado", obrigando a um esforço final de subida para regressarmos ao bairro limítrofe e, por fim, descermos ligeiramente até à meta, onde as mascotes da EDP e da Running Wonders saudavam simpaticamente todos os atletas.
No final, com um tempo bem acima de outros já alcançados, fecho a época de Meias Maratonas com a sensação de que também aqui bati recordes - de calor, de acumulado nesta distância, e de bons sentimentos.
Uma prova que, apesar da dureza, recomendo vivamente, contrariando algumas das opiniões que me foram chegando ao longo dos últimos meses. Guimarães merece a visita dos runners!

domingo, 5 de junho de 2016

Ao Pôr-do-sol

Correu-se ontem a II Meia-Maratona sunset de Caminha.
E ontem atingi aquele tal objetivo que, apesar de só o ter verbalizado para esta prova, já se vinha a aproximar, paulatinamente. Ontem foi, sem dúvida, um dia memorável.

O contexto
Nunca tinha corrida a distância da Meia Maratona a um horário tão tardio. O dia, ao tiro de partida, já pesava nas pernas. Nas minhas e nas de muitos outros atletas. E o sol, esse, teimava em ainda aquecer. E a prova acabou por ser, na generalidade, lenta. Mas já lá vamos.
Caminha é uma pequena localidade, e o local de partida a chegada, o Terreiro central da Vila, ajudou a que o ambiente nas esplanadas em redor fosse animador. Todos os comerciantes vestiam camisolas da prova, e os atletas lá se iam concentrando, a lanchar, beber café ou, simplesmente, conviver.

A primeira lição
Vivi um grande percalço, e aprendi (mais) uma lição. Nunca colocar o equipamento no saco sem antes verificar tudo. Quero dizer: tudo. Aconteceu que, ao preparar-me para calçar as meias, reparei que o par estava mal feito, e as meias eram de modelo e ajuste diferente ao pé. Tive que correr com meias novas, a estrear, compradas ali em Caminha, mesmo sabendo que isso não se faz. Era a minha única hipótese. Não correu mal. Mas podia ter corrido.

A partida
Aqueci tranquilamente, com os noventa minutos em mente e, ao aproximar-me da zona de concentração dos atletas, vi que haveria pacemakers a cada quinze minutos. Infelizmente, estava longe do atleta que viria a ser o pacemaker dos 90 minutos.
Cem metros após a partida, já estava tranquilamente ao meu ritmo, e animado. Havia uma multidão nas ruas de Caminha para aplaudir os atletas. E, convenhamos, o apoio popular é meio caminho!
Assustei-me ao verificar que tinha corrido o primeiro quilómetro abaixo dos 4 minutos. Muito rápido, até para as minhas melhores expetativas. Relaxei as pernas e ultrapassei o pacemaker dos noventa minutos. Sentia-me bem, e sabia que, se fosse preciso, poderia abrandar e esperar por ele para me guiar rumo ao meu objetivo. Não o voltaria a ver. Felizmente.

Velocidade (pouco) cruzeiro
O segundo quilómetro foi lento demais, e os quilómetros 3 a 7, fruto de um bem-estar que me enganou, foram muito rápidos, todos abaixo dos 4m10s. Apenas encontrei o meu ritmo ao quilómetro 8, mas já era tarde demais, e viria a pagar a fatura.
O quilómetro 11 coincidia com uma ligeira mas comprida subida até Moledo, e aí, enquanto sofria, a meio da prova, aprendi algumas lições. Já as tinha lido, mas acredito que precisamos de passar pelas dores na primeira pessoa para perceber o significado e valor de algumas premissas.
A primeira era clara – arrancar com um ritmo rápido demais paga-se durante a prova. E tive, durante várias centenas de metros, que me concentrar na respiração, por forma a conseguir garantir oxigenação suficiente para manter um ritmo melhor que sofrível. A segunda – que apesar de ter perdido bastantes quilos, há algumas gorduras instaladas – qual estado português – que me continuam a pesar em subida.
O quilómetro 12 foi ligeiramente mais rápido, mas ainda assim acima do ritmo que me permitiria chegar abaixo dos 90 minutos. Felizmente, a viragem, perto do quilómetro 14, significou mais dois quilómetros ao ritmo certo. E eis que, ao 15, quebrei, pagando o excesso de adrenalina inicial. Voltei aos 04:30 com que fizera a subida, o que representaria um tempo muito acima do objetivo. Foquei-me na respiração, primeiro, e em pensar positivo, depois. O cérebro prega-nos partidas e tende a ser pessimista quando o desgaste se começa a acumular. Grande parte do segredo de provas de longa distância está em enganarmo-nos a nós próprios. A Meia Maratona, sendo uma prova rápida dentro da longa distância, obriga-nos a jogar rápido, também, contra o nosso cérebro.
Aproveitei a paisagem deslumbrante da costa norte do país para me ajudar na batalha contra a psique. E estava novamente controlado, e rápido, ao quilómetro dezasseis. A ganhar, inclusive, tempo para o meu objetivo. Depois começámos, calmamente, a reaproximar-nos de Caminha. Quilómetro 17 em sofrimento mas no ritmo certo. 18 e 19 a ganhar uns segundos. No 20 já esgotado, a perder – poucos – segundos. Depois foi acelerar rumo à meta.

O descontrolo
O último quilómetro foi de descontrolo total.
Corri grande parte da prova com preocupações de forma de corrida. Sei que a minha forma é deplorável, e que é um dos principais fatores que preciso de melhorar. A forma de corrida tem impacto, principalmente, ao nível da saúde. E também dos tempos. Correr, como é o meu caso, com os joelhos para dentro e os braços demasiado contraídos pode representar risco aumentado de lesões. Graças às fotografias é possível apercebermo-nos dos nossos erros, e realizar treino específico para os corrigir.
Nesta prova, fruto também de alguns treinadores de bancada que iam gritando palpites para a estrada, estive sempre alerta para a minha forma, e procurei corrigi-la várias vezes (ainda assim fui apanhado em várias fotos muito mal posicionado). O quilómetro 21, esse, foi para esquecer. Queria sprintar por aquela multidão fora. Sabia que o objetivo estava próximo. O relógio previa 1h29m06s, e eu queria, porque queria, concretizar este objetivo.
Por outro lado, a quantidade de pessoas na berma de uma prova que, sendo pequena, foi muito assistida, contribuíram para o descontrolo emocional. E, com a razão descontrolada, não há forma que resista. Nem respiração. Nem tampouco ritmo. Fui ultrapassado por dois atletas que, com uma tática de corrida claramente melhor que a minha, tinham algumas reservas que lhes permitiram sprintar, e vi o cronómetro na chegada à meta mais animada que já vivi. Parecia o vencedor! 1h29m03s. Brutos. 1h28m55s, dizia o relógio.

A celebração
Celebrar é a parte mais importante de qualquer prova.
Preparamo-nos meses a fio. Suamos. Fazemos cedências e sacrifícios. Nós e os que nos rodeiam, por nós. E no final, tudo se resume àquele momento.
Cortei a meta. E agora? Agora há que hidratar. E repor eletrólitos. E comemorar junto dos outros finishers. E já agora, porque esta prova até tinha uma máquina de finos na meta, beber uma cerveja. Ou duas, vá.
Estava feito! Menos de um ano após começar a correr. Com uma paragem forçada pelo meio. Sem treinador. Sem clube. E, no entanto, ali estou eu, na meta, com mais uma medalha. A sexta Meia Maratona concluída. A primeira abaixo dos 90 minutos.
Foto para aqui, foto para ali. Depois há aqueles abraços que só os atletas conhecem. Transpirados, molhados, nada higiénicos, pouco viris e, no entanto, os mais saborosos. Afinal de contas, treinámos para aquele momento. E estabelecemos objetivos que nos permitem aprender que, dia após dia, com esforço, somos capazes de nos superar a nós próprios. E não há impossíveis. E da corrida é fácil extrapolar para a vida!
E depois de sair da zona de chegada, há que planear o próximo objetivo.



O próximo
O próximo será concluir a maratona do Porto. Em novembro. Claro que esse será o objetivo base. Vou tentar corrê-la em menos de 3h. É para isso que vou treinar. E vou estabelecer uns quantos objetivos intermédios. Mas para já, para já, seguem-se dois meses de treino menos estruturado. Correr “porque sim” e participar em provas “na brincadeira”. Relaxar. E em meados de julho arrancarei o plano de treino.
Até lá…

… Vamos Dar Corda aos Sapatos!

domingo, 29 de maio de 2016

Race report

Após cerca de duas semanas de ausência das lides da escrita, retomo o contacto com a blogosfera. Afinal de contas, após duas competições em distâncias mais curtas que o habitual, nada melhor do que, sentado, com uma cerveja ao lado e os pés descalços, fazer uma resenha daquilo que têm sido os últimos tempos em termos no que à corrida diz respeito.

Retomo o vosso contacto na Meia Maratona do Douro Vinhateiro, prova em que, falhando os 90 minutos - ainda não estava preparado -, me convenci que precisava de mais preparação, em provas ligeiramente mais rápidas.
E assim foi. Inscrevi-me e treinei para a Corrida da primavera 2016, em Esposende, no litoral norte.
A prova foi dura, dado que o vento soprava intensamente, mas muito bem organizada, e com uma paisagem distinta - o litoral desta pequena cidade minhota.
Acabei os dez quilómetros abaixo dos 42 minutos, apesar de tudo, e mentalizei-me que a forma física ainda está a caminho do seu melhor e que, com o treino certo, nada será impossível. A prova valeu-me novos recordes aos 5 e 10 quilómetros.
Seguiu-se uma semana pouco ortodoxa. Entre festejos (o Braguinha ganhou a taça de Portugal, a equipa só chegou a casa às três e meia da manhã e precisava de apoio), visitas ao Parque Nacional, feiras romanas e trabalho, não sobrou tempo para descansar - tive até que deixar de fora um ou outro treino planeados, e forcei-me, mais que uma vez, a sair de casa para treinar, mesmo que os músculos clamassem por descanso.
Hoje, após mais uma noite curta, fui até Vila Nova de Gaia correr a 2ª Corrida Portucale.
Trata-se de uma prova numa envolvente muito bonita - as margens do rio Douro, quer do lado de Gaia, quer do Porto. É, contudo, uma prova com uma distância algo estranha - quinze quilómetros. Não permitindo um elevado ritmo competitivo, é suficiente para treinar o ritmo de corrida para uma prova de distância mais longa.
E assim foi. A preparação era deficitária. A alimentação desadequada. O descanso muito abaixo do requerido. Até a hidratação foi mais descuidada, durante esta semana. E não corri com uma hierarquia de objetivos bem definida.
Estavam, pois, reunidas todas as condições para que as coisas não corressem bem.
Arranquei a prova ligeiramente acima do ritmo pretendido, mas cedo corrigi, aos dois quilómetros, tendo-me juntado a uma divertida equipe de Gaia, os Nascidos Para Correr, que iam a manter ritmo - e um ritmo que me agradava.
Lá fui, atrás deles, a desfrutar a paisagem e a tentar perceber se, para uma corrida de maior distância como é a Meia Maratona teria pernas para baixar dos noventa minutos.
Na Afurada, após uma curta subida, dava-se o último retorno, já após o quilómetro onze. Perdi aí o contacto com os NPC. Também não me esforcei por seguir com eles. Mantive-os à distância, e percebi que ainda havia pernas para acelerar, o que me deu algum alento e confiança.
Viria a terminar a prova abaixo dos 64 minutos, com energia suficiente para, após um breve convívio com os NPC, retirar o chip, receber mais uma merecida medalha e beber uma bebida desportiva, voltar atrás, a correr, e dar alento a um amigo que fazia a sua prova, ao seu ritmo. Estava batido mais um recorde, aos quinze quilómetros.
No final, sem duches mas com guarda-roupa, fica uma nota mediana para uma organização que pouca informação partilha com os participantes, com abastecimentos algo deficitários, mas capaz de erguer uma prova que une dois concelhos num cenário maravilhoso para correr. E até a meteorologia ajudou!
Entretanto, recuperei o objetivo noventa minutos para a Meia Maratona sunset de Caminha, no próximo sábado. Decidi antecipá-lo (estava a guardar este objetivo para Guimarães, no dia 26 de junho), uma vez que a prova para a qual o planeei inicialmente tem uma altimetria algo acentuada, o que possivelmente impedirá marcas muito rápidas. Serão menos duas semanas de preparação.

Hoje será, portanto, o último dia de excessos.
De segunda a sexta serei um anjinho, com pouco treino e muito descanso. Sábado vou "para a praia".
O relógio prevê 1h28m04s para Caminha. Espero que esteja, uma vez mais, correto. Mas para isso vou Dar Corda aos Sapatos!